 que uma dúzia de
cavaleiros cavalgassem lado a lado vestidos de
armadura. As esguias silhuetas de enormes
catapultas e monstruosas gruas de madeira mon-
tavam guarda lá em cima, como esqueletos de
grandes aves, e entre elas caminhavam homens de
negro, pequenos como formigas.
A porta do armeiro, olhando para cima, Jon sentiu-
se quase tão esmagado como naquele dia na estrada
do rei em que vira a Muralha pela primeira vez. A
Muralha era assim. Por vezes quase conseguia se
esquecer de que ela estava ali, do mesmo modo que
uma pessoa se esquece do céu ou da terra que pisa,
mas havia outras alturas em que parecia que nada
mais existia no mundo. Era mais velha que os Sete
Reinos, e quando Jon olhava para cima, sentia-se
entontecido. Conseguia sentir o enorme peso de todo
aquele gelo fazendo pressão sobre ele, como se
estivesse prestes a ruir, e de algum modo Jon sabia
que se a Muralha caísse, o mundo cairia com ela.
- Faz-nos pensar no que está do outro lado - disse
uma voz familiar. Jon olhou em volta.
- Lannister. Não vi... quer dizer, pensei que estivesse
sozinho.
Tyrion Lannister estava enrolado em peles tão
grossas que parecia um urso muito pequeno.
- Muito se pode dizer em defesa de apanhar as
pessoas desprevenidas. Nunca se sabe o que se pode
aprender.
- Não aprenderá nada comigo - disse-lhe Jon. Pouco
vira o anão desde o fim da viagem. Na qualidade de
irmão da rainha, Tyrion Lannister era convidado de
honra da Patrulha da Noite. O Senhor Comandante
destinara-lhe aposentos na Torre Real - embora,
apesar do nome, nenhum rei a tivesse visitado em
cem anos -, e Lannister jantava à mesa de Mormont,
passava os dias percorrendo a Muralha e as noites
jogando dados e bebendo com Sor Alliser, Bowen
Marsh e os outros oficiais de alta patente.
- Ah, eu aprendo coisas onde quer que vá - o
homenzinho indicou a Muralha com um cajado negro
e nodoso. - Como estava dizendo... por que será que
quando um homem constrói uma parede, o homem
seguinte precisa imediatamente saber o que está do
outro lado? - inclinou a cabeça e olhou Jon com seus
olhos curiosos e desiguais. - Você quer saber o que está
do outro lado, não quer?
- Não é nada de especial - disse Jon. Desejava partir
com Benjen Stark em suas patrulhas, penetrar
profundamente nos mistérios da Floresta
Assombrada, desejava lutar com os selvagens de
Mance Rayder e defender o reino contra os Outros,
mas era melhor não mencionar as coisas que
desejava. - Os patrulheiros dizem que é só floresta,
montanhas e lagos gelados, com montes de neve e
gelo.
- E os gramequins e os snarks - disse Tyrion. - Não
nos esqueçamos deles, Lorde Snow, caso contrário,
para que serve aquela grande coisa?
- Não me chame Lorde Snow.
O anão ergueu uma sobrancelha.
- Preferiria ser tratado por Duende? Se deixá-los
perceber que suas palavras o magoam, nunca se verá
livre da troça. Se lhe quiserem atribuir um nome,
aceite-o, faça-o seu. Assim, não poderão voltar a
magoá-lo com ele - fez um gesto com o cajado. -
Vem, anda comigo. A esta altura devem estar
servindo um guisado nojento na sala de estar, e não
recusarei uma tigela de qualquer coisa quente.
Jon também tinha fome, e assim se pôs ao lado do
Lannister e moderou o passo para ajustá-lo aos
desajeitados e bamboleantes do anão. O vento estava
aumentando, e ouviam os velhos edifícios de madeira
estalarem em toda a volta, e, a distância, uma porta
pesada bater, uma e outra vez, esquecida. A certa
altura ouviu-se um tump abafado, quando uma
camada de neve deslizou de um telhado e caiu perto
deles.
- Não vejo seu lobo - disse o Lannister enquanto
caminhavam.
- Amarro-o nos velhos estábulos quando estamos
treinando. Agora alojam todos os cavalos nas
cavalariças orientais e ninguém o incomoda. Durante
o resto do tempo, fica comigo. Minha cela fica na
Torre de Hardin.
- Essa é a que tem a ameia partida, não é? Pedra
estilhaçada no pátio abaixo e uma inclinação que
parece o nosso nobre rei Robert depois de uma longa
noite de bebida? Pensei que todos esses edifícios
estivessem abandonados.
Jon encolheu os ombros.
- Ninguém liga para onde dormimos. A maior parte
das velhas torres está vazia, e pode-se escolher
qualquer cela que se deseje - em outros tempos,
Castelo Negro alojara cinco mil guerreiros com todos
os seus cavalos, servidores e armas. Agora era o lar
de um décimo desse número, e partes do castelo
estavam caindo em ruína.
A gargalhada de Tyrion Lannister evaporou como
uma nuvem no ar frio.
- Hei de dizer ao seu pai para prender mais alguns
pedreiros, antes que sua torre caia.
Jon podia sentir a troça que havia naquelas
palavras, mas não adiantava negar a verdade. A
Patrulha construíra dezenove grandes fortes ao
longo da Muralha, mas apenas três se mantinham
ocupados: Atalaialeste, em sua costa cinzenta
varrida pelo vento; a Torre Sombria, junto às
montanhas onde a Muralha terminava; e, entre elas,
Castelo Negro, na extremidade da estrada do rei. As
outras fortificações, há muito desertas, eram lugares
solitários e assombrados, onde os ventos fri